Veja detalhes da decisão de Flávio Dino que autorizou buscas contra a família Coelho

Há 2 semanas
Atualizado quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da redação

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a realização de buscas e apreensões em endereços residenciais, comerciais e repartições públicas vinculados à família Coelho, de Pernambuco, no âmbito da Petição 10.684/PE, vinculada ao Inquérito 4905. A decisão na (Pet) 10684, que teve o sigilo retirado pelo ministro, atinge 19 pessoas físicas, 14 pessoas jurídicas e quatro dependências públicas — entre elas a 3ª Superintendência Regional da CODEVASF e a Prefeitura Municipal de Petrolina. As investigações apontam para um esquema de desvio de recursos públicos que pode ter desviado mais de R$ 198 milhões em contratos de pavimentação no município, entre 2017 e 2024.

O núcleo da investigação envolve o ex-senador Fernando Bezerra Coelho, o deputado federal Fernando Coelho Filho e o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho. Segundo a Polícia Federal, os parlamentares teriam direcionado emendas parlamentares e Termos de Execução Descentralizada (TEDs) à CODEVASF e à Prefeitura de Petrolina para custear contratos com a Liga Engenharia Ltda., empresa cujos sócios possuem laços familiares com o clã político — configurando, em tese, enriquecimento ilícito e desvio de verbas públicas.

A engrenagem do esquema: CODEVASF, emendas e a Liga Engenharia

A Polícia Federal identificou que entre 2017 e 2021 a Prefeitura de Petrolina figurou como favorecida em ao menos 27 convênios firmados com o Ministério do Desenvolvimento Regional ou com a CODEVASF, totalizando R$ 143,2 milhões em repasses federais — dos quais 94% foram destinados a serviços de pavimentação e recapeamento de vias. A principal beneficiária desses contratos foi a Liga Engenharia Ltda., que recebeu mais de R$ 100 milhões em empenhos do município desde 2017, quando a família Coelho assumiu a prefeitura local.

Um detalhe investigado com especial atenção pela PF é o fato de que, até o início das apurações, a Liga Engenharia não havia prestado serviços para nenhum outro município pernambucano, além de não ter prestado qualquer serviço à própria Petrolina nas gestões anteriores à família Coelho. A ascensão da empresa foi meteórica: em 2017, ocupava a 27ª posição entre os maiores fornecedores do município; em 2024, tornou-se a número 1, com pagamentos que superaram R$ 55 milhões apenas naquele ano.

Os sócios da Liga Engenharia possuem vínculos familiares com os parlamentares investigados. Fabrício Pontes Ribeiro Lima é sobrinho por afinidade de Fernando Bezerra Coelho; Pedro Garcez de Souza é cunhado de um primo do ex-senador. A decisão do ministro Flávio Dino destaca que as contratações assumem “contornos criminosos” justamente em razão desses laços de parentesco.

R$ 54 milhões em TEDs e um superintendente leal ao clã

Dois dos repasses mais expressivos identificados pela PF foram os TEDs nº 180/2020 e nº 196/2020, no valor de R$ 4 milhões e R$ 50 milhões, respectivamente, indicados pelos parlamentares da família Coelho à CODEVASF. No total, as investigações indicam que Fernando Bezerra Coelho e Fernando Filho foram responsáveis pelo envio de ao menos R$ 106,6 milhões para pavimentação no município, via CODEVASF.

A influência do clã sobre o órgão federal era exercida também por meio da nomeação de aliados para cargos estratégicos. Aurivalter Cordeiro Pereira da Silva, ex-assessor parlamentar do senador, assumiu a 3ª Superintendência Regional da CODEVASF em Petrolina em 2016 — por indicação direta de Fernando Bezerra Coelho — e permaneceu no cargo até maio de 2023. Mensagens extraídas de celulares apreendidos revelam que Aurivalter prestava contas semanalmente aos Coelho e recebia deles determinações e prioridades a cumprir.

Diálogos obtidos de celulares do ex-senador também mostram sua intervenção direta na escolha das ruas a serem pavimentadas e na expansão dos projetos. Em conversa com o então secretário municipal de Infraestrutura de Petrolina, Fernando Bezerra ordenou: “Manda fazer projeto para mais 10MM de recapeamento! Total 70mm!”, mesmo sem necessidade técnica identificada.

TCU e CGU apontaram irregularidades graves nas licitações

As suspeitas da Polícia Federal encontram respaldo em apurações de órgãos de controle. O Tribunal de Contas da União (TCU), em acórdão de 2020, identificou que a pregoeira da CODEVASF agiu com “formalismo exacerbado” ao desclassificar 18 licitantes por suposta falta de resposta em chat — culminando na contratação da Liga Engenharia pelo maior preço entre todas as 19 propostas apresentadas. O relator do TCU, ministro Benjamin Zymler, foi explícito ao apontar que a conduta da agente pública “confrontava-se com os princípios da economicidade e da busca da proposta mais vantajosa”.

A Controladoria-Geral da União (CGU), por sua vez, em auditoria realizada na 3ª Superintendência Regional, encontrou falhas graves em quatro pregões eletrônicos que somaram R$ 91,8 milhões em contratos: ausência de estudos técnicos preliminares, falta de projeto básico, ausência de medições das vias licitadas e inexistência de procedimentos formais para identificar conluio entre licitantes. Em pelo menos um dos contratos firmados com a Liga Engenharia, a CGU constatou que as fotografias usadas pelo fiscal do contrato para atestar a boa execução das obras foram produzidas pela própria empresa contratada — e que as obras apresentavam falhas em todas as 27 vias inspecionadas, apenas 18 meses após a conclusão.

Estrutura de ocultação patrimonial: sociedades em conta de participação e empresas de fachada

Além do esquema de contratações, a PF identificou uma sofisticada estrutura voltada à ocultação patrimonial. A Bari Automóveis Ltda., concessionária de veículos aparentemente controlada de fato por Fernando Bezerra Coelho e por Fernando Filho, realizava volumosas operações financeiras em espécie, muitas delas fracionadas, e repassava valores a pessoas físicas sem renda compatível.

O esquema utilizou também Sociedades em Conta de Participação (SCPs), modalidade empresarial sem personalidade jurídica que prescinde de registro formal e que, por isso, dificulta a identificação de sócios ocultos pelos órgãos de controle. Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do COAF identificaram que empresas ligadas às esposas de Fernando Filho e de Miguel Coelho figuravam como sócias ocultas em SCPs, recebendo aportes financeiros de forma triangulada. Em um dos casos, movimentações de R$ 5,47 milhões foram detectadas entre empresas interpostas.

A decisão aponta ainda a empresa Vale Soluções e Consultoria, aberta por Fernando Bezerra Coelho treze dias antes do término de seu mandato, como instrumento suspeito de ocultação patrimonial, em razão de movimentações financeiras incompatíveis com o perfil de um ex-parlamentar recém-saído da vida pública.

O que foi deferido e o que foi negado por Flávio Dino

O ministro Flávio Dino deferiu os pedidos de busca e apreensão domiciliar e pessoal, autorizando a apreensão de documentos físicos e eletrônicos, dinheiro em espécie acima de R$ 10 mil, joias, obras de arte e veículos de luxo encontrados na posse dos investigados. Também foi autorizado o afastamento do sigilo telefônico dos investigados, para que operadoras de telefonia forneçam extratos e dados de rastreamento.

Por outro lado, Dino negou o pedido de interceptação telefônica — por falta de fundamentação adequada da PF e por entender que há meios menos invasivos disponíveis — e também indeferiu a suspensão do direito de a Liga Engenharia participar de licitações, sob o argumento de que a medida poderia afetar contratos em andamento e terceiros não investigados. Da mesma forma, foi negado o afastamento do diretor de infraestrutura da CODEVASF, Henrique de Assis Coutinho Bernardes, por insuficiência probatória no requerimento policial. As informações apuradas serão compartilhadas com o TCU e a CGU para providências nos âmbitos de suas competências.

Autor

Leia mais

Laboratório de análises clínicas com funcionária coletando sangue

Laboratório deve ou não informar aos pais que filha menor fez teste de gravidez? STJ entende que não

Há 42 minutos

Segunda Turma do STF forma maioria para manter prisão de Daniel Vorcaro por milícia privada e fraude bilionária no Banco Master

Há 59 minutos
Entrada da Corregedoria Nacional de Justiça

Corregedoria Nacional estabelece diretrizes para magistrados em casos de recuperação judicial e falência de produtores rurais

Há 2 horas
Ex-presidente Jair Bolsonaro, entre policiais federais

Bolsonaro passa mal e é levado para fazer exames no hospital DF Star

Há 3 horas
Ex-banqueiro e empresário Daniel Vorcaro

STF começa a julgar  hoje se Daniel Vorcaro permanece preso

Há 5 horas
Demandas judiciais de saúde. Martelo da Justiça sob mesa ao lado de jaleco de médico e estetoscópio

Médico preso por morte de bebê tem habeas corpus negado pelo STJ

Há 6 horas
Maximum file size: 500 MB